segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Momento da Poesia...


O QUE HÁ
O que há em mim é sobretudo cansaço

Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço.

A sutileza das sensações inúteis,

As paixões violentas por coisa nenhuma,
Os amores intensos por o suposto em alguém,
Essas coisas todas
Essas e o que falta nelas eternamente
Tudo isso faz um cansaço,
Este cansaço,
Cansaço.

Há sem dúvida quem ame o infinito,

Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível,
Porque quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser...

E o resultado?

Para eles a vida vivida ou sonhada,
Para eles o sonho sonhado ou vivido,
Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto...
Para mim só um grande, um profundo,
E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,

Um supremíssimo cansaço,

Íssimo, íssimo, íssimo,
Cansaço...

Álvaro de Campos

Frase do Dia...


Eu não sou tão triste assim, é que hoje eu estou cansada.
Clarice Lispector

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Momento da Música...

U2 - I'll Go Crazy If I Don't Go Crazy Tonight


Ela é um arco-íris e adora uma vida tranqüila
Sabe que eu vou ficar louco se eu não enlouquecer esta noite
Existe uma parte caótica em mim que está silenciosa
E há uma parte em você querendo que eu me rebele
Todo mundo precisa chorar ou precisa cuspir
Cada dentinho precisa de uma porradinha
Cada beldade precisa sair com um idiota
Como pode você estar tão perto da verdade
E você não vê?
Oh, uma mudança de postura vem lentamente
Isto não é uma colina, é uma montanha
Assim que você começa a escalada
Você acredita em mim, ou está duvidando?
Oh, nós chegaremos até a luz
Mas eu sei que eu vou ficar louco se eu não enlouquecer esta noite
Cada geração tem a sua chance de mudar o mundo
Piedade para as nações que não escutam os seus meninos e meninas
Porque a mais doce melodia é aquela que nós jamais ouvimos
É verdade que o amor perfeito expulsa todo o medo?
O direito de parecer ridículo
É algo que eu prezo muito
Oh, uma mudança de postura vem lentamente
Isto não é uma colina, é uma montanha
Assim que que você começa a escalada
Escute-me, eu estarei gritando
Oh, nós chegaremos até a luz
Mas eu sei que eu vou ficar louco se eu não enlouquecer esta noite
Baby, baby, baby, eu sei que não estou sozinho
Baby, baby, baby, eu sei que não estou sozinho
Isto não é uma colina, é uma montanha
Assim que você começa a escalada
Escute-me, eu estarei gritando
Gritando para a escuridão
Espremendo faíscas da luz
Você sabe, nós ficaremos loucos
Você sabe, nós enlouqueceremos
Você sabe, nós vamos ficar loucos se nós não enlouquecermos esta noite
Oh… mais devagar agora
Oh…
Oh… devagar

Devaneios...


Hoje acordei meio podre,
me sentindo o pior dos ladrões.
Não roubei nada de importante,
nada de sério,
apenas furtei de mim algo que não descobri o que,
mas que faz falta, mesmo eu sem saber o que.
Sem intenção parece que passei a andar na contramão de algo que me deixava mais pleno, mesmo sem saber o que essa coisa,
parece que é coisa que me fazia sentir mais terreno e profano, ou o contrário, sei não.
Não sinto vazio, não sinto confusão, só me sinto podre sabe,
daquele jeito que ninguém sabe como definir.
Coisa que dá em todo mundo, em Chico e em Francisco.
Coisa que agente sente que nem dor de dente.
Não é remorso, nem mesmo uma profusão de culpa culminada com tristeza.
É apenas uma podridão aqui no peito.
Parece que o prazo de validade venceu,
mas não é isso não.
Inocência? Indecência? Benevolência? Grito? Gemido? Suspiro?
Parece que não vai passar não.
Indecência pode ser, com gemido e ao fim suspiro, esquecendo de inocência
ninguém é inocente!
Chega, é melhor por aqui parar, deixa, não vai passar.
Fui, acho melhor ir trabalhar...
Mauricio Ricardo Souza

Frase do Dia...


Atitudes valem mais do que palavras...
Autor desconhecido

sexta-feira, 30 de julho de 2010

Paper Bag - Saco de Papel
Fiona Apple


Eu estava olhando para o céu, apenas procurando por uma estrela.
Para orar, fazer um pedido ou algo assim.
Eu estava tendo uma doce fixação de um devaneio sobre um garoto
Cuja realidade eu sabia não ter esperança de acontecer
Mas então a pomba da esperança começou sua descida
E eu acreditei por um momento que minhas chances
Estavam se aproximando para serem agarradas
Mas enquanto caía por perto, também caía uma lágrima cansada
Achei que fosse um pássaro, mas era só um saco de p
apel.

Fome machuca, mas eu o quero tanto que mata.
Pois eu sei que sou uma bagunça que ele não quer limpar
Tenho que desistir, pois essas mãos tremem demais para segurar.
Fome machuca, mas morrer de fome funciona
Quando custa demais amar

E eu enlouqueci de novo hoje,
procurando por um fio para escalar.
Procurando por um pouco de esperança
Meu bem disse que não poderia ficar, que não iria pôr seus lábios nos meus.
E um fracasso no beijo é um fracasso na competição
Eu disse: ?Querido, não me sinto tão bem, não me sinto justificada.
Venha e ponha um pouco de amor aqui no meu vácuo?
- ele disse
"Está tudo na cabeça" - e eu disse ?Como tudo está?.
Mas ele não entendeu
Achei que ele fosse um homem, mas era só um garotinho.Fome machuca, mas eu o quero tanto que mata.
Pois eu sei que sou uma bagunça que ele não quer limpar
Tenho que desistir, pois essas mãos tremem demais para segurar.
Fome machuca, mas morrer de fome funciona quando custa demais amar
Fome machuca, mas eu o quero tanto que mata.

Fome machuca, mas eu o quero tanto que mata.
Pois eu sei que sou uma bagunça que ele não quer limpar
Tenho que desistir, pois essas mãos tremem demais para segurar.
Fome machuca, mas morrer de fome funciona quando custa demais amar
Fome machuca, mas eu o quero tanto que mata.

Fome machuca, mas eu o quero tanto que mata.
Pois eu sei que sou uma bagunça que ele não quer limpar
Tenho que desistir, pois essas mãos tremem demais para segurar.
Fome machuca, mas morrer de fome funciona quando custa demais amar
Fome machuca, mas eu o quero tanto que mata.

Para refletir...


Última carta a Leonard Woolf

Querido,

Tenho certeza de que estou enlouquecendo de novo. Sinto que não podemos passar por outra daquelas terríveis fases. E desta vez não ficarei curada. Começo a ouvir vozes, e não posso me concentrar. Assim, estou fazendo o que me parece melhor. Você me deu a maior felicidade possível. Não creio que duas pessoas pudessem ser mais felizes até chegar esta doença terrível. Não consigo mais lutar. Sei que estou estragando a sua vida e que sem mim você poderá trabalhar. E você vai, eu sei. Está vendo, nem consigo mais escrever adequadamente. Não consigo ler. O que quero dizer é que devo a você toda a felicidade da minha vida. Você foi absolutamente paciente comigo e incrivelmente bom. Quero dizer isso — e todo mundo sabe. Se alguém pudesse me salvar, teria sido você. Perdi tudo, menos a certeza da sua bondade. Não posso mais continuar estragando sua vida.

Não creio que duas pessoas tenham sido mais felizes do que nós fomos.

Frase do Dia...


As mulheres, durante séculos, serviram de espelho aos homens por possuírem o poder mágico e delicioso de reflectirem uma imagem do homem duas vezes maior que o natural.
Virginia Woolf

segunda-feira, 19 de julho de 2010

Frase do Dia...


"Eu me perdi de mim também. Perdi no mundo o que era o mundo meu"
Nando Reis

Momento da Poesia...


Cansaço
Escasso é o desejo de continuar
Viver
Sentir
Sofrer
O cansaço se impõe
Como os ventos e turbilhões
De sentimentos, sofrimentos
Tormentos e lamentações

Cansaço
Escasso é desejo de permitir
De agir
Sorrir
Mentir
Cansaço de ser rocha
De tentar não demonstrar
Aquilo que enlouquece
Desespera e está a dilacerar

Cansaço
Escasso é o desejo de seguir
De lutar
Cantar
Tocar
Cansaço de tanto fazer
E nada receber
Ficar a ver navios e a morrer
Sem nem o mínimo de querer

Cansaço
Escasso é o desejo de certo agir
De tentar
Ajudar
Solidarizar
Cansaço de estender a mão
E de coração ajudar
Ao conhecido ou desconhecido
A quem não merece nem um não

Cansaço
Não acabou esse cansaço
Mas cansei
Enchi
Vou dormir
Cansaço de estar cansado
E ficar aqui parado
Só dizendo do meu cansaço

Eduardo Ferreira Dias de Souza

Momento da Música...

Pra Você Guardei o Amor
Nando Reis e Ana Cas
Composição: Nando Reis


Pra você guardei o amor
Que nunca soube dar
O amor que tive e vi sem me deixarRemover formatação da seleção
Sentir sem conseguir provar
Sem entregar
E repartir

Pra você guardei o amor
Que sempre quis mostrar
O amor que vive em mim vem visitar
Sorrir, vem colorir solar
Vem esquentar
E permitir

Quem acolher o que ele tem e traz
Quem entender o que ele diz
No giz do gesto o jeito pronto
Do piscar dos cílios
Que o convite do silêncio
Exibe em cada olhar

Guardei
Sem ter porque
Nem por razão
Ou coisa outra qualquer
Além de não saber como fazer
Pra ter um jeito meu de me mostrar

Achei
Vendo em você
E explicação
Nenhuma isso requer
Se o coração bater forte e arder
No fogo o gelo vai queimar

Pra você guardei o amor
Que aprendi vendo meus pais
O amor que tive e recebi
E hoje posso dar livre e feliz
Céu cheiro e ar na cor que arco-íris
Risca ao levitar

Vou nascer de novo
Lápis, edifício, tevere, ponte
Desenhar no seu quadril
Meus lábios beijam signos feito sinos
Trilho a infância, terço o berço
Do seu lar

Guardei
Sem ter porque
Nem por razão
Ou coisa outra qualquer
Além de não saber como fazer
Pra ter um jeito meu de me mostrar

Achei
Vendo em você
E explicação
Nenhuma isso requer
Se o coração bater forte e arder
No fogo o gelo vai queimar

Pra você guardei o amor
Que nunca soube dar
O amor que tive e vi sem me deixar
Sentir sem conseguir provar
Sem entregar
E repartir

Quem acolher o que ele tem e traz
Quem entender o que ele diz
No giz do gesto o jeito pronto
Do piscar dos cílios
Que o convite do silêncio
Exibe em cada olhar

Guardei
Sem ter porque
Nem por razão
Ou coisa outra qualquer
Além de não saber como fazer
Pra ter um jeito meu de me mostrar

Achei
Vendo em você
E explicação
Nenhuma isso requer
Se o coração bater forte e arder
No fogo o gelo vai queimar

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Momento da Poesia...


Para Pensar

Existe apenas uma idade para sermos felizes, apenas uma época da vida de cada pessoa em que é possível sonhar, fazer planos e ter energia suficiente para os realizar apesar de todas as dificuldades e todos os obstáculos. Uma só idade para nos encantarmos com a vida para vivermos apaixonadamente e aproveitarmos tudo com toda a intensidade, sem medo nem culpa de sentir prazer. Fase dourada em que podemos criar e recriar a vida à nossa própria imagem e semelhança, vestirmo-nos de todas as cores, experimentar todos os sabores e entregarmo-nos a todos os amores sem preconceitos nem pudor. Tempo de entusiasmo e coragem em que toda a disposição de tentar algo de novo e de novo quantas vezes for preciso. Essa idade tão fugaz na nossa vida chama-se presente e tem a duração do instante que passa...
Mario Quintana

Frase do Dia...


Errar é inerente ao ser humano! Admitir um erro é o princípio para tudo melhorar! Buscar mudança é o sinal do amadurecimento! Não mais errar, impossível, não dá!

Autor Desconhecido

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Momento da Poesia...


Feliz do homem...

Feliz do homem que sem cerimônia
e com audácia, faz de vitórias couraça
para nos caminhos da vida não derrancar
sua pele nos espinhos e agonizar

Feliz do homem que enfrenta as tristezas
e não pra debaixo da mesa
vai refugio encontrar
e sim sobre alto palanque
grita... "sigo avante" rumo a vitória, deixa levar

Feliz do homem que acaricia a mulher
com suas mãos deixa-lhe ver que és
e entorpece com gestos e poses
enche-a de gozo e amores

Feliz do homem que com paciência
vê o injusto escarnio alheio,
contra si e sem rodeio
sofre mas espera fiel
até que seja honrado, é o céu

Feliz daquele que simplesmente vive
sofre, geme, ai que triste
mas que goza, sente, sorri
e a vida vai vivendo, aí de mim.

Eduardo Ferreira Dias de Souza

Momento da Música...



Voa, liberdade
Jessé
Composição: Mário Maranhão - Eunice Barbosa - Mário Marcos

Voa, voa minha liberdade
Entra se eu servir como morada
Deixa eu voar na sua altura
Agarrado na cintura
Da eterna namorada

Voa feito um sonho desvairado
Desses que a gente sonha acordado
Voa, coração esvoaçante
Feito um pássaro gigante
Contra os ventos do pecado

Voa nas manhãs ensolaradas
Entra, faz verdade esta ilusão

Voa no estalo do meu grito
Quero ser teu infinito
Neste azul sem dimensão
Voa...

Frase do Dia


"Oh! Bendito o que semeia
Livros ... livros à mão cheia ...
E manda o povo pensar!
O livro caindo n'alma
É germe – que faz a palma,
É chuva – que faz o mar."

Castro Alves


A mãe do cativo

Ó mãe do cativo! que alegre balanças
A rede que ataste nos galhos da selva!
Melhor tu farias se à pobre criança
Cavasses a cova por baixo da relva.

Ó mãe do cativo! que fias à noite
As roupas do filho na choça da palha!
Melhor tu farias se ao pobre pequeno
Tecesses o pano da branca mortalha.

Misérrima! E ensinas ao triste menino
Que existem virtudes e crimes no mundo
E ensinas ao filho que seja brioso,
Que evite dos vícios o abismo profundo ...

E louca, sacodes nesta alma, inda em trevas,
O raio da espr'ança... Cruel ironia!
E ao pássaro mandas voar no infinito,
Enquanto que o prende cadeia sombria! ...

II

Ó Mãe! não despertes est'alma que dorme,
Com o verbo sublime do Mártir da Cruz!
O pobre que rola no abismo sem termo
Pra qu'há de sondá-lo... Que morra sem luz.

Não vês no futuro seu negro fadário,
Ó cega divina que cegas de amor?!
Ensina a teu filho - desonra, misérias,
A vida nos crimes - a morte na dor.

Que seja covarde... que marche encurvado...
Que de homem se torne sombrio reptíl.
Nem core de pejo, nem trema de raiva
Se a face lhe cortam com o látego vil.

Arranca-o do leito... seu corpo habitue-se
Ao frio das noites, aos raios do sol.
Na vida - só cabe-lhe a tanga rasgada!
Na morte - só cabe-lhe o roto lençol.

Ensina-o que morda... mas pérfido oculte-se
Bem como a serpente por baixo da chã
Que impávido veja seus pais desonrados,
Que veja sorrindo mancharem-lhe a irmã.

Ensina-lhe as dores de um fero trabalho...
Trabalho que pagam com pútrido pão.
Depois que os amigos açoite no tronco...
Depois que adormeça co'o sono de um cão.

Criança - não trema dos transes de um mártir!
Mancebo - não sonhe delírios de amor!
Marido - que a esposa conduza sorrindo
Ao leito devasso do próprio senhor! ...

São estes os cantos que deves na terra
Ao mísero escravo somente ensinar.
Ó Mãe que balanças a rede selvagem
Que ataste nos troncos do vasto palmar.

III

Ó Mãe do cativo, que fias à noite
À luz da candeia na choça de palha!
Embala teu filho com essas cantigas...
Ou tece-lhe o pano da branca mortalha.

Castro Alves


Porto Solidão

Jessé
Composição: Zeca Bahia e Gincko

Se um veleiro
Repousasse
Na palma da minha mão
Sopraria com sentimento
E deixaria seguir sempre
Rumo ao meu coração...

Meu coração
A calma de um mar
Que guarda tamanhos segredos
Diversos naufragados
E sem tempo...

Rimas, de ventos e velas
Vida que vem e que vai
A solidão que fica e entra
Me arremessando
Contra o cais...(2x)

Se um veleiro
Repousasse
Na palma da minha mão
Sopraria com sentimento
E deixaria seguir sempre
Rumo ao meu coração...

Meu coração
A calma de um mar
Que guarda tamanhos segredos
Diversos naufragados
E sem tempo...

Rimas, de ventos e velas
Vida que vem e que vai
A solidão que fica e entra
Me arremessando
Contra o cais...(4x)

Rimaaaaaas!
A solidão que fica e entra
Me arremessando
Contra o cais...

quinta-feira, 10 de junho de 2010

Momento da Poesia...


Tragédia no lar

Na Senzala, úmida, estreita,
Brilha a chama da candeia,
No sapé se esgueira o vento.
E a luz da fogueira ateia.

Junto ao fogo, uma africana,
Sentada, o filho embalando,
Vai lentamente cantando
Uma tirana indolente,
Repassada de aflição.
E o menino ri contente...
Mas treme e grita gelado,
Se nas palhas do telhado
Ruge o vento do sertão.

Se o canto pára um momento,
Chora a criança imprudente ...
Mas continua a cantiga ...
E ri sem ver o tormento
Daquele amargo cantar.
Ai! triste, que enxugas rindo
Os prantos que vão caindo
Do fundo, materno olhar,
E nas mãozinhas brilhantes
Agitas como diamantes
Os prantos do seu pensar ...

E voz como um soluço lacerante
Continua a cantar:

"Eu sou como a garça triste
"Que mora à beira do rio,
"As orvalhadas da noite
"Me fazem tremer de frio.

"Me fazem tremer de frio
"Como os juncos da lagoa;
"Feliz da araponga errante
"Que é livre, que livre voa.

"Que é livre, que livre voa
"Para as bandas do seu ninho,
"E nas braúnas à tarde
"Canta longe do caminho.

"Canta longe do caminho.
"Por onde o vaqueiro trilha,
"Se quer descansar as asas
"Tem a palmeira, a baunilha.

"Tem a palmeira, a baunilha,
"Tem o brejo, a lavadeira,
"Tem as campinas, as flores,
"Tem a relva, a trepadeira,

"Tem a relva, a trepadeira,
"Todas têm os seus amores,
"Eu não tenho mãe nem filhos,
"Nem irmão, nem lar, nem flores".

A cantiga cessou. . . Vinha da estrada
A trote largo, linda cavalhada
De estranho viajor,
Na porta da fazenda eles paravam,
Das mulas boleadas apeavam
E batiam na porta do senhor.

Figuras pelo sol tisnadas, lúbricas,
Sorrisos sensuais, sinistro olhar,
Os bigodes retorcidos,
O cigarro a fumegar,
O rebenque prateado
Do pulso dependurado,
Largas chilenas luzidas,
Que vão tinindo no chão,
E as garruchas embebidas
No bordado cinturão.

A porta da fazenda foi aberta;
Entraram no salão.

Por que tremes mulher? A noite é calma,
Um bulício remoto agita a palma
Do vasto coqueiral.
Tem pérolas o rio, a noite lumes,
A mata sombras, o sertão perfumes,
Murmúrio o bananal.

Por que tremes, mulher? Que estranho crime,
Que remorso cruel assim te oprime
E te curva a cerviz?
O que nas dobras do vestido ocultas?
É um roubo talvez que aí sepultas?
É seu filho ... Infeliz! ...

Ser mãe é um crime, ter um filho - roubo!
Amá-lo uma loucura! Alma de lodo,
Para ti - não há luz.
Tens a noite no corpo, a noite na alma,
Pedra que a humanidade pisa calma,
— Cristo que verga à cruz!

Na hipérbole do ousado cataclisma
Um dia Deus morreu... fuzila um prisma
Do Calvário ao Tabor!
Viu-se então de Palmira os pétreos ossos,
De Babel o cadáver de destroços
Mais lívidos de horror.

Era o relampejar da liberdade
Nas nuvens do chorar da humanidade,
Ou sarça do Sinai,
— Relâmpagos que ferem de desmaios...
Revoluções, vós deles sois os raios,
Escravos, esperai! ...

..................................................................

Leitor, se não tens desprezo
De vir descer às senzalas,
Trocar tapetes e salas
Por um alcouce cruel,
Que o teu vestido bordado
Vem comigo, mas ... cuidado ...
Não fique no chão manchado,
No chão do imundo bordel.

Não venhas tu que achas triste
Às vezes a própria festa.
Tu, grande, que nunca ouviste
Senão gemidos da orquestra
Por que despertar tu'alma,
Em sedas adormecida,
Esta excrescência da vida
Que ocultas com tanto esmero?
E o coração - tredo lodo,
Fezes d'ânfora doirada
Negra serpe, que enraivada,
Morde a cauda, morde o dorso
E sangra às vezes piedade,
E sangra às vezes remorso?...

Não venham esses que negam
A esmola ao leproso, ao pobre.
A luva branca do nobre
Oh! senhores, não mancheis...
Os pés lá pisam em lama,
Porém as frontes são puras
Mas vós nas faces impuras
Tendes lodo, e pus nos pés.

Porém vós, que no lixo do oceano
A pérola de luz ides buscar,
Mergulhadores deste pego insano
Da sociedade, deste tredo mar.
Vinde ver como rasgam-se as entranhas
De uma raça de novos Prometeus,
Ai! vamos ver guilhotinadas almas
Da senzala nos vivos mausoléus.

— Escrava, dá-me teu filho!
Senhores, ide-lo ver:
É forte, de uma raça bem provada,
Havemos tudo fazer.

Assim dizia o fazendeiro, rindo,
E agitava o chicote...
A mãe que ouvia
Imóvel, pasma, doida, sem razão!
À Virgem Santa pedia
Com prantos por oração;
E os olhos no ar erguia
Que a voz não podia, não.

— Dá-me teu filho! repetiu fremente
o senhor, de sobr'olho carregado.
— Impossível!...
— Que dizes, miserável?!
— Perdão, senhor! perdão! meu filho dorme...
Inda há pouco o embalei, pobre inocente,
Que nem sequer pressente
Que ides...
— Sim, que o vou vender!
— Vender?!. . . Vender meu filho?!

Senhor, por piedade, não
Vós sois bom antes do peito
Me arranqueis o coração!
Por piedade, matai-me! Oh! É impossível
Que me roubem da vida o único bem!
Apenas sabe rir é tão pequeno!
Inda não sabe me chamar? Também
Senhor, vós tendes filhos... quem não tem?

Se alguém quisesse os vender
Havíeis muito chorar
Havíeis muito gemer,
Diríeis a rir — Perdão?!
Deixai meu filho... arrancai-me
Antes a alma e o coração!

— Cala-te miserável! Meus senhores,
O escravo podeis ver ...

E a mãe em pranto aos pés dos mercadores
Atirou-se a gemer.
— Senhores! basta a desgraça
De não ter pátria nem lar, -
De ter honra e ser vendida
De ter alma e nunca amar!

Deixai à noite que chora
Que espere ao menos a aurora,
Ao ramo seco uma flor;
Deixai o pássaro ao ninho,
Deixai à mãe o filhinho,
Deixai à desgraça o amor.

Meu filho é-me a sombra amiga
Neste deserto cruel!...
Flor de inocência e candura.
Favo de amor e de mel!

Seu riso é minha alvorada,
Sua lágrima doirada
Minha estrela, minha luz!
É da vida o único brilho
Meu filho! é mais... é meu filho
Deixai-mo em nome da Cruz!...

Porém nada comove homens de pedra,
Sepulcros onde é morto o coração.
A criança do berço ei-los arrancam
Que os bracinhos estende e chora em vão!

Mudou-se a cena. Já vistes
Bramir na mata o jaguar,
E no furor desmedido
Saltar, raivando atrevido.
O ramo, o tronco estalar,
Morder os cães que o morderam...
De vítima feita algoz,
Em sangue e horror envolvido
Terrível, bravo, feroz?

Assim a escrava da criança ao grito
Destemida saltou,
E a turba dos senhores aterrada
Ante ela recuou.

— Nem mais um passo, cobardes!
Nem mais um passo! ladrões!
Se os outros roubam as bolsas,
Vós roubais os corações! ...

Entram três negros possantes,
Brilham punhais traiçoeiros...
Rolam por terra os primeiros
Da morte nas contorções.

Um momento depois a cavalgada
Levava a trote largo pela estrada
A criança a chorar.
Na fazenda o azorrague então se ouvia
E aos golpes - uma doida respondia
Com frio gargalhar! ...

Castro Alves

quarta-feira, 2 de junho de 2010

Frase do dia...

Não quero passar minha vida tentando corrigir os erros que cometi na minha ânsia de acertar. Tenho que evoluir, melhorar...

Eduardo Ferreira Dias de Souza